PATROPIA, ANO 20XX


          “Diziam os selvagens sobre uma entidade amorfa, disforme, traiçoeira como as raízes na terra. Tão serpente e vulgar, não era homem e nem mulher, tão besta e natural. Entregou-se aos selvagens outrora como cobra, e em troca suas vistas devorou, coletando mil olhos e visões, semeando a terra com fogo, florescendo energética uma cobra rasteira. Trazia consigo múltiplas feições: ora flora, ora fauna — encarnando fome, encarnando sede e até desejo, por fim, satisfação. Encarnou certa vez como tronco e no aço do machado, derrubando a si mesma, lúcida cobra criada. Encarnou na ponta da pedra, nas plumas das flechas, na presa ferida e findou, vestindo a mortalha, encarnada nos vermes famintos do chão.”